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Soltura de animais na natureza

A maioria das pessoas que têm carinho pelos animais querem ver os bichos soltos na natureza. Nada é mais gratificante e lindo do que ver uma ave sair voando de uma gaiola ou, até mesmo, uma onça ser libertada após o tratamento de seus ferimentos. Mas é importante que as pessoas entendam que a soltura ou devolução de animais silvestres para a natureza vai muito além de abrir as portas de uma gaiola ou sair liberando animais por aí. Esse trabalho requer muitos cuidados, estratégias e técnicas específicas.

Caso você ou algum conhecido seu tenha algum animal silvestre, como um papagaio, tartaruga ou passarinho, em hipótese nenhuma faça você mesmo a soltura desse animal na natureza. Por mais que esta ação tenha as melhores das intenções, esse tipo de soltura pode trazer sérias consequências para o meio ambiente e, em especial, para o animal. A soltura responsável deve passar por uma sequencia de avaliações e cuidados com o animal. Procure um Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS) ou ONG especializada para que a soltura seja bem-sucedida.

Um detalhe muito importante antes de se chegarmos ao ponto de fazer a soltura é ter uma área para reintroduzir o animal. Pode parecer simples, mas encontrar uma área que tenha capacidade de receber um animal nem sempre é tarefa fácil. Existem critérios para a seleção de áreas de soltura. Esses locais devem ser autorizados pelos órgãos ambientais competentes, sejam eles estaduais ou o federais (IBAMA).

Embora existam técnicas distintas e específicas para cada grupo animal, podemos dizer que existem dois tipos principais de soltura: a chamada soltura branda (soft-release) e soltura dura (hard-release). A técnica de soltura branda consiste em prover para os animais um processo de soltura transitório, com etapas de adaptação. Já a soltura dura, não apresenta transição ou suporte aos animais, ou seja, a partir da soltura o animal está por conta própria. Cada uma destas técnicas deve ser aplicada em situações específicas, de acordo com as necessidades de cada animal.

A AMPARA Silvestre em suas ações do Pantanal realizou os dois tipos de soltura. A onça Ousado, encontrada com muitos ferimentos nas patas, debilitada, passou por um processo de reabilitação de suas condições físicas para estar apta à soltura. Por ser um animal adulto, adaptado a viver na natureza, foi realizada a soltura dura, sem necessidade de aclimatação ou treinamento. O monitoramento pós-soltura evidenciou que a técnica aplicada foi bem-sucedida e Ousado foi encontrado com saúde e indícios de sucesso de caça.

Já para Jabuticaba e Tião, que são dois filhotes de anta, a soltura dura não é recomendada. Estes animais ainda dependiam de suas mães neste estágio da vida e, desta forma, além do processo de recuperação do peso e dos ferimentos, estes dois fofinhos precisam de um processo mais longo e transitório de soltura. Mas para chegar no estágio de soltura, eles precisam atingir certa maturidade e, até lá, precisam aprender a se alimentar por conta própria. Quando chegar o momento, será feita a soltura branda com essa dupla.

Indiferente da técnica utilizada no momento da soltura, os cuidados e processo de preparação dos animais para a devolução à natureza devem ser muito bem executados. Animais que viveram muitos anos em cativeiro têm que aprender a buscar alimento sozinhos e reativar parte de suas habilidades suprimidas pelo cativeiro. Existem casos em que é preciso fazer um tratamento para que o animal deixar de ver o homem como fonte de alimento, ou trabalhos para reverter comportamentos humanizados, muito comum em papagaios, por exemplo.

Sabemos que a fauna brasileira sofre com a extração de milhares animais da natureza pelo tráfico, que centenas são feridos em estradas e outros tantos entram em atrito com as cidades e suas interferências. As técnicas de soltura são o último recurso para os animais terem uma segunda chance de viver livres, mas elas não são a solução para o problema.

Precisamos respeitar a fauna brasileira efetivamente, incluir os animais nas tomadas de decisão, criar medidas preventivas eficazes para os acidentes, e acabar de uma vez por todas com a demanda de animais silvestres como pets. Essa é a missão da AMPARA Silvestre! Você vem com a gente?

 

Texto: Maurício Forlani – Biólogo e Gerente de Projetos da AMPARA Silvestre