Ampara Animais Silvestres - Melhores ONGs

Blog

Seleção natural vs seleção artificial por meio de reprodução
By: Mídias Digitais
Tags:
ago 3, 2021

Nos últimos anos vimos um boom na criação e venda de determinadas raças de cães e gatos, principalmente aquelas que apresentam um focinho achatado como pugs, shih tzus, lhasas apsos, bulldogs ingleses, franceses, gatos persas, entre outros.

Todas estas raças possuem a característica de terem um focinho achatado, olhos grandes e uma cara arredondada. Estudos recentes demonstraram que as pessoas optam por estas raças por acharem, de maneira inconsciente, mais parecidas com um bebê humano.

Mas infelizmente estas características vieram através de décadas e décadas de seleção artificial, que foi utilizada não pensando no bem-estar do animal e sim em um apelo estético e mercadológico, em uma demanda do mercado.

Hoje sabemos que estes cães e gatos sofrem muito com esta condição, padecem de problemas oculares e respiratórios e diversos países estão tentando regulamentar a criação destes animais braquicefálicos, proibindo sua criação ou impondo limites em suas características morfológicas, como por exemplo a Holanda que proíbe desde 2014 a criação e venda de cães que tenham o focinho mais curto que 1/3 do comprimento do crânio.

O conselho do Reino Unido para o Bem-estar de animais de companhia (UK Companion Animal Welfare Council – CAWC) já em 2006 se posicionou a respeito do tema:

  “Problemas genéticos relacionados a criação de raças puras têm afetado seriamente o bem-estar animal e merece a nossa atenção porque:

  • Afetam um número enorme de animais
  • Os efeitos destes problemas genéticos perpetuam de geração para geração
  • A qualidade e quantidade de vida dos animais são severamente reduzidas
  • E esses efeitos causam sofrimento durante toda a vida do animal “

Muitos animais braquicefálicos sofrem durante toda a vida com dificuldade para respirar, e muitos apresentam uma síndrome chamada “Síndrome da obstrução das vias aéreas

dos braquicefálicos” – apresentando problema sérios como narinas estreitas, palato mole alongado, sáculos laríngeos evertidos, colapso laríngeo e traqueal, hipoplasia traqueal e fenda palatina. Muitos apresentam problemas oftalmológicos, por conta do globo ocular mais exposto, como ceratoconjuntivite seca (olho seco) culminando em ulcerações da córnea, que causa muita dor e até pode levar a cegueira. Estes animais também podem sofrer com mais facilidade de hipertermia e têm maior facilidade de desenvolvimento de doenças periodontais em decorrência do estreitamento dos dentes.

A AVMA (Associação Médico Veterinária Americana) inclusive lançou, em 2017, um pronunciamento a respeito dos problemas relacionados a algumas raças, dizendo que recomenda estudos sobre as doenças relacionadas as raças e encoraja os veterinários americanos a educarem os criadores e tutores sobre estes problemas, e sobre as responsabilidades que todos tem sobre esta questão.

A BVA (Associação Veterinária Britânica) em 2006 já falava que existia uma necessidade urgente de revisão dos padrões das raças, a fim de parar o sofrimento desnecessário de determinadas raças, e já advogavam que os veterinários deveriam aconselhar tutores a não comprarem cães e gatos braquicéfalos e que deveriam escolher raças mais saudáveis. E reforçaram que os cães braquicefálicos “não deveriam ser vistos como fofos ou desejáveis, ao contrário, os veterinários deveriam explicar que estes cães são predispostos a uma vida doente e com baixo nível de bem-estar”.

O CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) através de sua resolução 1238/2018 estabelece que “é maus-tratos realizar ou incentivar acasalamentos que tenham elevado risco de problemas congênitos/hereditários e que afetem a saúde da prole e/ou progenitora, ou que perpetuem problemas de saúde pré-existentes dos progenitores”.

A solução para este sofrimento está em pararmos de reproduzir estes cães e exigirmos as melhores práticas de criação animal. Os animais não devem ser procriados como mercadorias, com objetivos puramente mercadológicos. As criações animais e a seleção genética envolvida devem ser responsáveis, visando somente a o bem-estar animal. Animais com braquicefalia severa devem ser retirados da reprodução e não deveriam poder gerar mais filhotes. Inclusive, algumas raças nem deveriam ter sido criadas de maneira artificial.

As associações de criadores deveriam ser contra este tipo de criação, exigindo a triagem compulsória de cães para distúrbios relacionados à raça antes de qualquer cão ser usado para reprodução.

O registro dos filhotes deveria ser feito dependente da triagem de saúde dos pais, com certificação apropriada vinculada a microchipagem (obrigatório para venda) e essas associações e  criadores deveriam mudar as exigências de padrões de raça que não priorizem a saúde e o bem-estar dos animais, ou seja,

Os critérios de seleção de cães para reprodução deve ser somente a saúde e o bem-estar e nunca critérios meramente estéticos ou funcionais.

Todos nós deveríamos nos opor à criação de animais que produzam alterações na forma ou função corporal, por meio da seleção artificial,  que são prejudiciais à sua saúde e/ou qualidade de vida.

Texto: Rosangela Gebara – Veterinária e Gerente de Projetos da AMPARA Animal