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Pitbull é vítima, não vilão
dez 19, 2019

Por Amanda Salim

O Brasil se escandalizou nesta semana com a terrível notícia sobre a rinha dos pitbulls em Mairiporã, na região metropolitana de São Paulo. 41 pessoas foram detidas, mas rapidamente liberadas pela justiça. Apenas uma delas permanece presa (até quando?).

Em meio ao noticiário e à comoção que as imagens causaram, muita gente ainda se pergunta – e outros afirmam – que cães da raça pitbull são agressivos por natureza e nascem para agredir outros animais e pessoas. O assunto é antigo e os mitos infelizmente permanecem vivos, o que indica que já passou da hora de desconstruir algumas inverdades.

Qual é a primeira coisa que você pensa quando ouve a palavra “pitbull”? Muita gente sente medo e até vincula a raça a comportamentos assassinos. Do lado oposto, quem tem um pit em casa afirma que não poderiam ser mais dóceis e carinhosos.

Mas, para realmente entender os pitbulls, vamos saber de onde eles vêm?

De onde vem o pitbull?

O nome Pitbull se refere à mistura de pelo menos três raças: American Pit Bull Terrier, American Staffordshire Terrier e Staffordshire Bull Terrier. As três foram criadas a partir de cruzamentos com raças para caçar animais grandes e proteger rebanhos.

Segundo a Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), as características essenciais do American Pit Bull Terrier são a força, a autoconfiança e a alegria de viver. A raça gosta de agradar e é cheia de entusiasmo. É um excelente cão de companhia e é notável o seu amor por crianças (guarde esta informação).

Para conhecer, tem que conviver.

Fomos conversar com quem realmente conhece e convive com cães da raça pitbull para esclarecer pontos que ainda geram dúvidas em muita gente.

Alessandro Desco resgata pitbulls e vira-latas há uma década. O comerciante de produtos químicos pai de uma menina de 3 anos e de um rapaz de 21 já é bem conhecido na proteção animal e conta com mais de 65 mil seguidores no Instagram no perfil @pitsales99.

Seu trabalho a favor do bem-estar animal começou lá atrás, na época do Orkut. Sua rede de apoio (emocional e financeira) é grande e muito importante: Alessandro afirma que 70% das despesas médicas são pagas com doações. Os 30% restantes saem mensalmente do seu bolso. Ele tem 3 voluntários fixos e, nestes 10 anos dedicados à causa animal, já doou mais de 300 animais.

Alessandro conta que começou a resgar pitbulls porque percebeu, lá atrás, que a raça sofria muito preconceito. “Quando é um vira-lata, a pessoa bate o pé e o cachorro sai. Já o pitbull na rua, dependendo do lugar onde ele está, é agredido. As pessoas não têm informação, acham que o cachorro é assassino e pensam em matá-lo. Infelizmente este é o pensamento de muita gente”.

O primeiro pitbull resgatado por Alessandro foi o Spike. “Fui com minha esposa até um terreno baldio, onde Spike estava. Fiquei 3 horas dando salsicha para tentar convencê-lo a entrar no carro até que um senhor que estava por ali passou e perguntou se eu queria colocá-lo no carro. Disse que sim, então ele simplesmente pegou o cachorro no colo e o colocou pra mim. Não acreditei”, conta.

Pitbulls são super adotáveis, mas certos cuidados são necessários.

O protetor Alessandro explica que existe todo um critério para que a adoção aconteça. “A procura é grande, mas eu seleciono bem. Gasto bastante dinheiro com eles porque quero o melhor para cada um. Eles vão viver uma média de 13 anos, precisarão ser vacinados todo ano, vermifugados de forma regular, ficarão doentes e o tutor terá que comprar remédios, sem falar no antipulgas, na ração de qualidade, etc. Já cheguei a rodar 4 horas no interior de São Paulo para levar um pit para adoção. Quando cheguei lá, vi que o rapaz tinha metido para mim: a casa não tinha segurança nenhuma e percebi que o cachorro ficaria acorrrentado. Voltei para casa com ele na mesma hora”, conta Alê.

Já entendemos no começo deste texto que pitbulls são cães de companhia. Eles gostam do contato e da proximidade com as pessoas. “Como vou doar um cão para ficar isolado?” é o que Alessandro pergunta às pessoas que querem adotar pitbulls para deixar no sítio. “Também não deixo levar se for para ser cão de guarda”, afirma. “O meu objetivo é encontrar pessoas que queiram dar amor e carinho para estes animais. Quando aparece gente interessada que vive em apto, é perfeito. Os pitbulls são tranquilos, não latem, são limpos.”

Apesar de serem cachorros sociáveis e adorarem companhia, os pitbulls são fortes por natureza. Por conta disso, é preciso ter disciplina para educar o cão no dia a dia. Um pulo desajeitado de um pitbull pode derrubar uma pessoa. Como ninguém quer isso, é importante que o tutor de um cão deste porte (e não apenas desta raça) se atente para a educação e crie uma rotina para adestrar seu pet. Mais para frente iremos abordar este assunto de forma mais profunda.

Pitbull, o cão babá.

Muita gente não sabe, mas, durante muitos anos, especialmente na virada para o século 20, os pitbulls eram conhecidos nos Estados Unidos como “the nanny dog” ou “cão babá”, em português. Estes animais eram conhecidos por serem fiéis, amorosos e leais, principalmente quando se tratava de crianças. O protetor Alessandro Desco conta que seus pitbulls pulam na piscina para “salvar” sua filha quando ela está na água. “É puro instinto. Eles se jogam, pois entendem que ela precisa de ajuda”.

Alessandro conta que, ao chegar da maternidade com a pequena Laura, abaixou com ela no colo para que todos os cachorros a cheirassem. “Quando ela foi colocada no bebê conforto no centro da sala, todos eles deitaram em volta dela para protege-la. Ela cresceu e continua assim até hoje. Aonde ela vai, eles vão atrás para garantir sua segurança”, conta o protetor.

Mitos e verdades 

O que não faltam são mitos para rondar a vida dos pitbulls. Mas como saber o que é real e o que é leviano a respeito destes animais? Conversamos com a veterinária Susana Pastor Pazini (CRMV 38394), que esclarece abaixo o que devemos saber e compartilhar por aí:

* O cérebro dos pitbulls cresce mais do que sua caixa craninana.
Mito. Os cérebros dos canídeos crescem igualmente para todas as raças.

* Qualquer cachorro, em qualquer condição, pode ser reabilitado e voltar a ter uma vida social normal.

Depende muito do histórico do animal. Muitas vezes são muito maltratados – o que torna a reabilitação mais difícil, mas não impossível. Com muita paciência, informação e amor, é possível, sim, reabilitar qualquer animal.

* Os pitbulls têm mandíbulas que travam durante a mordida e depois não abrem mais.

Mito. Todos os animais que são induzidos a morder, seja por raiva ou medo, agem da mesma forma. A diferença é a força que cada animal deposita em sua mordida. Um pitbull – pelo seu tamanho e força – acaba causando um estrago muito maior do que um poodle, por exemplo.

* Quais os cuidados que devemos ter com filhotes de pitbull? Os cuidados são basicamente os mesmos para qualquer filhote. Evitar que crianças muito pequenas brinquem com eles de forma que os machuque. Evitar deixar coisas que eles destruam ou comam, etc.

* O pitbull não é uma raça agressiva, mas tratam-se de cães fortes, com porte atlético. Há cuidados específicos que os tutores devem ter no dia a dia?

Verdade. Um cão deste porte precisa ter um espaço adequado, tanto por serem mais ativos, quanto por serem mais fortes e muitas vezes morderem portões, parede, etc. Por isso é muito importante deixá-los em locais com portões seguros fazer exercício físico com eles, passear, correr, brincar, etc, para que gastem bastante energia.

* É proibido cortar o rabo e as orelhas dos cachorros, inclusive, pitbulls?

Verdade. Cortar rabo e orelhas para fins estéticos é proibido e está no Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais 9605/98. Além disso, o CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) proibiu a prática por meio da Resolução 1027/2013.

Pitbulls mordem como qualquer outro cachorro do seu porte

Sobre a famosa “mordida” do pitbull, ela é tão forte quanto a de um pastor alemão, de um fila e até de um vira-lata de porte grande. E, embora os pitbulls tenham uma mordida extremamente forte, não há evidências de que suas mandíbulas possuam algum tipo de “trava”, ao contrário do que sugere um dos diversos mitos a respeito destes animais.

É fundamental ter ciência que um pitbull é como qualquer cão de qualquer outra raça. A diferença é que se por algum motivo ele for induzido a morder, tende a morder mais forte por conta da força que naturalmente tem, mas agirá como qualquer outro cão que morde. Então, um cão desse porte requer mais atenção para gastar energia e evitar provocações e situações de estresse.

O que transformou o pitbull de “cão babá” para “assassino cruel”?

Infelizmente, as pessoas logo encontraram maneiras de explorar o comportamento e o porte físico do pitbull, e sua forte aparência se tornou um símbolo de violência, cultura de drogas e, em alguns lugares do mundo, gangues.

Hoje, os pitbulls permanecem em grande parte incompreendidos por causa de proprietários irresponsáveis, notícias sensacionalistas e uma proliferação de mitos. Como resultado, a legislação específica de raças surgiu em diversas cidades dos EUA que restringem muito ou proíbem completamente cães pitbull como animais de estimação. De acordo com o site One Green Planet, o estigma que marca os pitbulls também contribuiu para o surgimento de abrigos nos EUA. “Um em cada quatro dos animais trazidos para abrigos é pitbull, e sua taxa média de eutanásia gira em torno de 93%”, afirma o website.

Este número está diretamente ligado à percepção equivocada das pessoas à respeito destes animais. Mas isso felizmente está mudando. Renata Schulz tem 50 anos e trabalha com comportamento animal há 7. Para ela, o alto volume de desinformação a respeito dos pitbulls vem da própria mídia, que noticia ataques de pitbulls de maneira errônea, pois já houve casos de ataques de outras raças ou até mesmo de vira-latas, mas a mídia dá a notícia afirmando se tratar de um pitbull. “Na maioria das vezes, esse tipo de notícia surge porque o resultando de um ataque de um pitbull pode ser devastador. Afinal, eles realmente possuem uma mordida muito forte, de forma que o estrago causado é muito maior do que um chihuahua, obviamente. Outro agravante para o preconceito das pessoas vem do fato do pitbull ser um dos cachorros mais usados em rinhas e, infelizmente, isso foi difundido para o mundo todo. No entanto, ressalto que qualquer cachorro – de qualquer raça, porte ou idade – pode machucar uma pessoa”, afirma Renata.

A adestradora explica que o pitbull é um cachorro com muita vitalidade, porte atlético e extremamente resistente. Por isso, os pitbulls são cães que necessitam de muita atividade física. Idas ao parque para correr, trilhas e caminhadas longas são indispensáveis na rotina deste cão. Apesar de todos os cães demandarem atividade física diária, no caso do pitbull e de outros cães mais atléticos, essa necessidade se transforma em exigência. Energia não gasta em exercícios vira chinelo destruído, latidos fora de hora e uma carga de estresse que o animal (e seu tutor) não deveria receber. Quando isso acontece, muitas pessoas lembram da figura do adestrador ou especialista em comportamento animal. “Para o bem geral, todos os cachorros deveriam ser adestrados. Normalmente as pessoas procuram adestrar cães de médio e grande porte porque têm medo que o cão puxe durante as caminhadas, pule nas pessoas e machuque… Por ser um cachorro robusto, seria de bom senso de quem tem um pitbull em casa ensinar comandos básicos e brincadeiras saudáveis, como a de buscar objetos”, explica a especialista.

Por que adestrar um pitbull (ou qualquer outro cachorro)?

De acordo com Renata, o adestramento é uma forma que encontramos de nos comunicar com os cães, dizer a eles o que queremos e saber como eles se comunicam, permitindo assim que possamos atendê-los. No caso de cães fortes, como o pitbull, o adestramento é absolutamente indispensável. E, mais importante ainda, ela não recomenda a raça para qualquer pessoa: “Se a pessoa é novata na convivência com um cachorro, não aconselho ter um pitbull porque uma característica dos bulls é a teimosia, o que demandaria mais treino e paciência por parte dos tutores. É fundamental saber respeitar a individualidade e características de cada indivíduo como um ser. Pessoas mais caseiras, que não gostam muito de caminhadas e atividades ao ar livre, assim como aquelas que não têm tempo para se dedicar corretamente na criação de um filhote de pitbull (que envolve muita socialização desde pequenino, muito contato com vários cachorros e pessoas e exposição a ambientes barulhentos, como ruas, avenidas e shoppings), não são indicadas para ter um cão dessa raça.

Nas palavras da adestradora, qualquer cachorro que não tenha suas necessidades básicas atendidas pode apresentar problemas comportamentais. Com os pitbulls não é diferente. “Levando em consideração que a maioria dos cães dessa raça necessita de muita atividade física e mental — especialmente quando mais jovens –, não oferecer isso ao cachorro pode gerar frustrações a ponto de levá-lo a apresentar agressividade. No mesmo sentido (e isso serve para todas as raças), a falta de socialização quando filhote, ou seja, privar o cachorro do convívio social com pessoas, ou sua privação do convívio com a mãe e a ninhada por um período mínimo de dois meses, também pode interferir no comportamento futuro do cão, sendo um deles a agressividade”, explica.

Existem inúmeros traumas que podem comprometer o bem-estar de um cachorro e, infelizmente, às vezes para o resto da vida. Renata conta que, dependendo do caso, uma técnica muito utilizada é a dessensibilização, que consiste em mostrar ao cão que aquilo do qual ele tem medo não é ruim, expondo-o gradualmente ao evento causador do trauma, ajudando-o a superá-lo. A ênfase do treino para cães traumatizados deve ser sempre com “reforço positivo”, nunca com punições.

“Os pitbulls são cães como os outros. Todos os cães, para serem saudáveis, precisam ter suas necessidades básicas atendidas, levando em conta algumas características de cada raça ou mistura de raças. Todo cachorro deve ter a chance de levar uma vida de cachorro, na qual a natureza de sua própria espécie é respeitada e preservada”, finaliza Renata.

Assim como qualquer outro cachorro, pitbulls podem ser companheiros surpreendentes. Tudo depende da forma como são criados. Para a nossa sorte (e, claro, dos pitbulls), vários estigmas sobre a raça estão começando a desaparecer graças à histórias de amor e carinho envolvendo a criação responsável por tutores conscientes.

Abaixo, dois depoimentos de tutores que se encaixam neste (feliz) perfil:

Depoimento do advogado Rogerio Abreu, de 48 anos:

“Os pets na minha vida começaram ainda na minha infância quando veio o Julian, um Cocker Spainel Inglês, preto, lindo, mas bravo, bravo mesmo, apesar de todo o mimo e amor que recebia. Ficou com a família por 17 anos, até descansar. Nesse tempo casei e fiquei alguns anos sem nenhum animal de estimação em casa, apesar da minha vontade, até que uma amiga falou de um evento de adoção e lá fui eu com a minha filha, Ana Beatriz, e minha esposa. Ela só foi para ter certeza de que não adotaríamos nenhum cachorro (uhauhaua). E não é que ela se apaixonou pela Dalila, uma vira-latinha caramelo com dois meses? Depois veio a Babaloo, uma vira-lata preta, grudenta e ciumenta encontrada na rua; Docinho, vira-lata branquinha adotada de um abrigo que eu ajudava; Kat, vira-lata de grande porte e resgatada por um amigo; Gabriel, um bulldog inglês nenê e paraplégico; Vênus, uma pitbull abandonada nas ruas; Zeus, um pitbull enorme perdido na estrada; Kira, uma pastora canadense que já estava na casa que alugo e, agora, os dois filhotes de pitbull adotados do PitsAles chamados Toro e Gaia.  Hoje são sete filhos caninos, depois que alguns partiram.

“Mas e os pitbulls, não são bravos? Você não tem medo que eles matem os outros cachorros? E a sua neta, você deixa ficar perto deles? Pitbulls são muito perigosos. Você é louco!”. Estas são perguntas e afirmações frequentes que escuto com relação aos pitbulls e só tenho a lamentar pelo desconhecimento e discriminação. Minha neta, Lavínia, de apenas 1 ano e meio, ama os cachorros, brinca no meio deles e, com eles, divide a sua comida. Eles adoram a Lavínia. O Toro e a Gaia, hoje com 7 meses e enormes, são os mais amorosos com ela. Não perdem uma oportunidade de dar um lambeijo e roubar um brinquedo dela, lógico, rs.

E o Eros, aaahhh, o Eros, um pitbull de médio porte abandonado com câncer de pele… Quando chegou em casa não teve problema nenhum de adaptação com os outros irmãos (e olha que eram sete na época!). Mas como um pitbull estranho não brigou com os outros? Não brigou porque é um amor. Não tem uma pessoa que não se encante com o Eros quando vem em casa. É o mais dengoso da família.

Vênus era uma pitbull “atentada” de tão bagunceira, mas outro amor de cachorra. Dócil, amorosa, feliz. Às vezes achamos que ela reencarnou na Gaia, outro amor “encapetado”, rsrs.

Toro, meu “nenê” de quase 40kg é lindo, calmo, amoroso e adora um colo, sem ter a menor noção do seu tamanho…

Não posso deixar de falar do Zeus, um senhor de grande porte. Senhor não, um lorde encantador. Não se apaixonar pelo Zeus é impossível. Toro e Gaia o adotaram como pai e ficam superfelizes quando acordam e veem o papai.

Mesmo sendo os amores que são, meus pitbulls ainda sofrem o preconceito da raça. A maioria das pessoas se afasta, olha torto, faze comentários desagradáveis e desnecessários, o que me chateia, mas o azar é delas, que perdem o prazer de curtir o amor e docilidade destes animais.

Eles não são bonzinhos porque são meus e estão acostumados comigo, mas porque são bons e amorosos por natureza. Um ou outro pode ter a sua personalidade desviada pelos Homem, mas a essência deles é o amor e eu não tenho medo ou receio de que os meus cachorros, principalmente os pitbulls, interajam com a minha a neta, com a minha família e com os meus amigos, afinal eles só têm amor para dar e não é possível que alguém não goste de amor.”

Depoimento da gerente financeira Patricia Peters, de 41 anos:

Sou mãe de três adolescentes, divorciada, moro com meus filhos num apartamento em São Paulo e administro nossas rotinas com certa tranquilidade. Num certo momento de 2019 meu caçula, Felipe, de 13 anos decidiu que queria um cachorro, especialmente que fosse da raça pitbull. Confesso que tentei tirar esta ideia da cabeça dele por conta de tudo que ouvimos a respeito da raça….

Numa noite ele entrou num site “amigo não se compra”, e me fala: “Mãe, vamos adotar um?”. Meu coração e intuição foram muito mais motivados pelo ato dele querer adotar um cãozinho do que qualquer outro argumento que pudesse ser negativo à vontade dele. Logo fizemos contato, e entre algumas pessoas, nos direcionaram para falar com o Alessandro Desco, que tem um trabalho lindo e árduo de resgatar cães da raça pitbull.

Escolhemos conhecer a Ravena, uma linda Pit de 8 anos. Nos apaixonamos por ela e logo decidimos que ela faria parte de nossa família. Naquele momento, nos explicaram todos os problemas de saúde que ela tinha, muitos deles (a grande maioria) sequelas de uma vida de dor, fome, escassez de tudo que é possível…

Quase todo muito se assusta quando ouve que tenho um pitbull em meu apartamento, ainda mais com filhos, enteada, sobrinhas…Mas basta conhecerem a Ravena para jogar no lixo todo preconceito construído sobre absurdos que ouvimos e lemos por aí.

Confesso que, no início, Ravena não queria receber carinho. Não por ser agressiva, mas por desconhecer carinho. Ela tinha um olhar vazio, uma alma sedenta de amor, seu caminhar de muita dificuldade devido às doenças, até AVC ela teve por ingestão de drogas….Sim, pessoas ruins a obrigavam a ingerir drogas!!

Hoje, depois de um pouco mais de 1 mês, ela até arrisca uma corridinha, fica toda serelepe quando vamos passear e  entra na brincadeira com nosso outro cachorro – um vira-lata de porte. Assim vamos aprendendo, vamos conhecendo para amar, para desmistificar e desprogramar todo e qualquer peso que a raça traga em seu nome.

Ravena deita na gente, joga a cabeça em nosso colo pedindo atenção! É uma senhorinha cheia de vontade de viver, de amor para dar, e como dizemos em casa, nossa pequena búfala desastrada (rs), que de tão intensa de carinho e afeto, não percebe o tamanho que tem e passa arrastando a gente, e trazendo para nossa casa e para nossas vidas a alegria desta doação porque é mútua, é verdadeira.

O futuro é cheio de incertezas por tantas dificuldades de tudo que ela passou. O câncer, a alergia, a tremedeira por conta de sequelas irreparáveis do AVC – isso tudo abrevia seu tempo de vida, mas nossa vontade é que ela conheça cada vez mais o que é ter uma vida digna, de cuidados e proteção,de sermos uma matilha e uma verdadeira família!!!

Nos perguntamos sempre, como ela, que passou por tantas situações de maus-tratos, tendo em seu DNA e conceito uma raça feita para ataque e combate, ainda assim, pode ser tão meiga, tão carinhosa, pedir atenção e carinho?? Imagino então como seria muito mais perfeita esta relação entre cachorro e ser humano se, quando desde seu nascimento, conhecesse apenas o amor, carinho e proteção!