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Conservação não é venda de animais

Nos últimos anos, o setor de criação comercial de animais selvagens no Brasil tem usado uma frase muito impactante e que pode causar confusão em muitas pessoas: Criar é preservar. Essa frase é amplamente utilizada na tentativa de trazer convencimento às pessoas de que a criação comercial de animais selvagens é sinônimo de conservação, o que de fato, não é.

O importante nessa discussão é trazer o ponto de que existem diferentes modalidades de criação de animais selvagens no Brasil. Uma delas é denominada Criação Conservacionista de Animais Silvestres, que como o nome já diz, tem o objetivo de conservar espécies e não realiza a venda dos animais. Porém, o tipo de criação mais comum no Brasil, e que mais usa a frase “Criar é preservar”, são os chamados Criadores Comerciais de Animais Silvestres, que pelo nome já deixa claro seu objetivo de venda de animais. Existem ainda empreendimentos de criação comercial com finalidade de abate, ou seja, animais são criados para comércio de suas partes, majoritariamente, carne e pele.

De acordo com dados do Ibama, existem 438 criadores comerciais no Brasil que, juntos, exploram comercialmente 553 espécies de animais nativos e exóticos. Mesmo com um número expressivo de criadores e espécies, apenas 8,2% dos animais que nasceram nestes criadouros são considerados ameaçados de extinção, ou seja, a criação comercial como esperado não visa salvar essas espécies. Mas sabemos que existem espécies que podem e já foram salvas da extinção com programas conservacionistas, que dentre suas atividades incluíam a reprodução em cativeiro e posterior soltura.

Mas será que devemos acreditar que toda reprodução em cativeiro representa conservação? Avaliando os documentos da Comissão para a Sobrevivência de Espécies da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), Diretrizes de Manejo Ex Situ para a Conservação de Espécies, fica evidente que a criação comercial não é sinônimo de conservação. O documento deixa claro que nem todas as espécies irão exigir um componente ex situ (criação fora do ambiente natural) como parte de sua estratégia de conservação, além de trazer uma ferramenta de análise com 5 etapas para decidir quando o manejo ex situ é uma ferramenta de conservação adequada.

Outra questão de extrema relevância é o método implementado na criação comercial, que visa padrões de cor e tamanho específicos para o mercado consumidor: quanto mais diferentes, melhor. Essa seleção genética voltada à venda dos animais, não representa o que precisamos para programas de conservação, uma vez que precisam ser mantidas as características naturais da espécie e respeitar a variabilidade genética.

Não podemos esquecer um grave problema que existe através da criação comercial: ela amplia a demanda por animais selvagens. A criação comercial legalizada é uma grande vitrine para a atividade do tráfico. Basta avaliar os dados de animais traficados e você vai perceber que, das 20 espécies mais traficadas, todas, 100%, também são comercializadas legalmente. Isso é um grande problema no Brasil, pois o tráfico de animais continua exercendo forte pressão nas espécies.

É interessante esse aspecto da demanda do mercado Pet, pois é comum vendedores de animais divulgarem que a criação comercial de duas espécies extintas da natureza, o bicudo (Sporophila maximiliani) e a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) foram salvas por eles. O que a criação comercial não gosta de falar, é que estas duas espécies foram extintas da natureza por duas razões somadas: a perda de habitat e a retirada dos animais para o mercado pet. A ararinha-azul, por exemplo, teve seu programa de reintrodução através de animais traficados ilegalmente do Brasil – fato bem descrito na literatura do tráfico. Já o bicudo, é uma das – se não A ESPÉCIE – mais desejadas por passarinheiros no Brasil, com relatos desde o século XIX do alto valor no mercado. Mesmo com a redução de seu habitat, o que trouxe sua extinção na natureza, foi a demanda do mercado Pet que levou a este cenário, pois ainda existe habitat natural para esta espécie.

Por mais que o Brasil tenha 1.182 espécies ameaçada de extinção, existem várias atividades e pesquisas que devem ser realizadas antes da reprodução comercial em cativeiro. Temos que fortalecer as unidades de conservação para que o habitat dos animais seja preservado. Por fim, devemos ter clareza das ações conservacionistas que cada espécie exige e não interpretar erroneamente a criação em cativeiro em detrimento de qualquer outra forma de ação conservacionista.