Ampara Animais Silvestres - Melhores ONGs

Blog

Coleira antilatido com choque: saiba o motivo para não usá-la
mar 29, 2021

Existem diversas “coleiras antilatidos” sendo vendidas no mercado e algumas funcionam com um mecanismo de choque, que é disparado para silenciar um cão que esteja latindo.

É importante saber que, apesar de serem vendidas como produtos inócuos, inofensivos, que não causam dor e seguros, o uso desses dispositivos pode ter implicações graves para o bem-estar de seu animal a curto e longo prazo.

Apesar da propaganda enganosa, as coleiras são obviamente projetadas para impedir o seu cão de latir através de uma punição, ou seja, o choque.

Antes de tudo, temos que entender por que nosso cão late e se esse latido realmente deve ser coibido. Muitas empresas que vendem estas coleiras categorizam os latidos caninos como um ato “desnecessário”, “excessivo” ou um “incômodo”, que deve ser parado a qualquer custo e, desta forma, justificam o uso do seu produto.

É extremamente importante analisar caso a caso, entender os reais motivos do latido excessivo de seu animal, entender se este é mesmo um comportamento normal ou anormal, suas causas e, assim, definir a melhor estratégia junto com o veterinário e um especialista em comportamento animal.

Sabemos que os cães não latem sem motivo. Só porque o motivo não é óbvio para nós, não significa que não haja um. Os defensores do uso das coleiras de choque não levam em conta esses fatores e simplesmente oferecem um método paliativo que vai tentar parar um comportamento através de um estímulo aversivo.

A punição, que é a base de todas essas coleiras – possui riscos conhecidos, e todos que pensam em comprar esses produtos, precisam estar cientes disso.

Acrescente a isso o risco de deixar seu cão sozinho com um dispositivo em volta do pescoço que pode não apenas funcionar mal, mas também funcionar de uma maneira que você não esperava, ou seja, sempre haverá riscos.

A ciência do comportamento animal nos diz que o comportamento é controlado pelas condições ambientais (externas e internas). Assim, o latido de um cachorro pode ser provocado por gatilhos, ou seja, pelo barulho dos filhos do vizinho brincando em seu quintal, um caminhão barulhento passando pela propriedade, uma campainha tocando na casa vizinha, outros cães latindo, um ladrão entrando em sua casa ou por razões internas, por exemplo, porque seu cão está com dor ou sofre de medo, tédio ou solidão. As condições internas são impossíveis de se detectar e resolver rapidamente, mas podemos entendê-las com uma análise minuciosa do comportamento e da linguagem corporal do cão.

Além dos gatilhos, o comportamento também é controlado pelas consequências: um comportamento tende a ocorrer com mais frequência no futuro, se levar a resultados favoráveis ​​para o animal (reforço), e com menos frequência, se os resultados não forem tão bons (punição).

As coleiras antilatidos operam por meio de punição positiva (adicionando algo ao ambiente do cão para reduzir o comportamento de latir). O problema é que essa punição positiva pode ter consequências negativas, pois a aversão que o cão criará com o choque pode fazer associações negativas com qualquer gatilho ou qualquer coisa no ambiente, ou seja, com o tempo o animal pode começar a associar os gatilhos com o choque e não o latido, e isso pode ser perigoso.

Qualquer coisa que o cão possa ouvir, ver, cheirar ou perceber naquele momento pode ser associada a experiência negativa. Os filhos do vizinho, o gato em cima do muro, a campainha do vizinho, o latido dos outros cães, qualquer coisa. Agora o cão se sente ainda mais motivado a latir quando confrontado com esses elementos no futuro. Um comportamento ansioso e agressivo pode ocorrer facilmente.

Cães que eram felizes e confiantes podem ficar ansiosos, apáticos ou agressivos após o uso de coleiras antilatidos, pois ao tentarmos bloquear ou suprimir o comportamento de um indivíduo fornecendo consequências aversivas, sempre pode trazer riscos.

Para cães que latem por ansiedade, por exemplo, aqueles que sofrem de ansiedade de separação ou fobias de determinados ruídos, o uso de punição ou resposta aversiva pode ser particularmente catastrófico. As coleiras simplesmente vão trazer e acumular ainda mais experiências ruins na mente já perturbada de um cão.

Não há bem-estar e alegria onde há punição, confusão e frustração. Portanto, converse com seu veterinário ou com um profissional em comportamento animal e procure entender os motivos pelos quais seu animal está latindo excessivamente. Procure métodos humanitários e eficazes para ajudar a diminuir este comportamento.

 

Nunca use produtos a base de choques, sprays de citronela, entre outros, por melhor que sejam as indicações do rótulo.

Existem maneiras de diminuir este comportamento de forma gradual e segura para seu animal – tente estímulos novos, físicos e mentais, mantenha a mente dele ocupada, tente oferecer mais passeios, mais brincadeiras, tente tratar problemas como ansiedade de separação, fobias, entre outros. E lembre-se, a punição nunca é a melhor opção.

Leve sempre me consideração o bem-estar físico e psicológico do seu animal!

 

Texto: Rosangela Gebara – Veterinária e Gerente de Projetos da AMPARA Animal.