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Assim, de graça
By: Carolina Ferraz
jun 8, 2015

Voluntário: qualquer trabalho, ação, movimento, reação biológica ou atitude que se inicia e se desdobra por vontade própria, orgânica, fluida, e não imposta, forçada ou comprada.

Agora pela outra perspectiva da história, aos olhos de um não-voluntário, a pergunta é: o que faz a coisa toda do voluntariado existir? O que acontece internamente com alguém que se voluntaria a qualquer causa ou propósito sem que haja qualquer remuneração para tal empenho?

O que faz com que o tão escasso e precioso tempo seja doado assim, de graça?

As razões são diversas, improváveis, delicadas, na maioria das vezes tão sutis que passam despercebidas e são difíceis de explicar com alguma racionalidade. Mas elas existem e são sempre a força propulsora de tal entrega. Portanto esse “de graça” pode ser sim, financeiramente gratuito, mas é riquíssimo em outros ganhos não monetários, mas sim afetivos.

Já conheci graças à AMPARA e as causas animais, voluntárias que eram motivadas por terem amor demais a doar, portanto sua entrega lhes rende aquela paz no coração que só quem ama de verdade sabe o que é. A sensação de amor correspondido, tão rara e tão sonhada.

Outras voluntárias se entregam graças a sua preocupação real e ativa com a saúde pública presente e o legado futuro que deixarão ao planeta. O que ganham? A sensação de dever cumprido com uma causa que lhes molesta. Estas, talvez mais racionais, de forma alguma deixam de ser extremamente passionais ao se manterem empenhadas e dedicadas num esforço que, acreditem, muitas vezes parece maior que o que podemos administrar.

Algumas integrantes, percebo que se doam à causa por tantas vezes terem sido privadas de amor pleno, por terem sido negligenciadas de amor, e por isso saberem da relevância de tal cuidado e por isso os estendem aos animais. Ganham ao descobrir nos bichos uma troca real, densa e recíproca.

Já fui eu mesma voluntária com participação bem mais ativa, mas que simplesmente não consegui equilibrar a balança da vida cotidiana, filho, casa, “filhocachorro”, marido, empresa e pepinos cotidianos. Percebi que meu tempo já consumia o tal “reservatório morto” e portanto, para conseguir erguer minha empresa teria que abrir mão desta doação de tempo e atenção da parte administrativa e logística da AMPARA.

Me via presa na labuta de produtora gráfica pensando “como elas conseguem?”.

Até hoje não sei, confesso.

A AMPARA funciona num ritmo de locomotiva. Há um exército prioritariamente feminino que vira noite, vai à reunião conseguir patrocínio e apoio, distribui ração, organiza feira de adoção e tudo isso paralelamente às suas vidas “reais”.

Sei o sentimento que as move mas desconheço esse dom organizacional de se doar quando o dia já parece começar atrasado e a vida cobrando as pendências retroativas.

Aos poucos fui entendendo a matemática que resulta num verdadeiro voluntário, que vê numa causa um propósito maior e apaixonante: é preciso ser alguém que de fato não espera qualquer redenção nessa doação de si próprio. É preciso ser alguém, mais do que tudo, extremamente organizado. E o mais importante: É preciso ser alguém que se conheça o bastante para saber o que tem de melhor em si para doar.

Pode ser tempo. Pode ser colocando mesmo a mão na massa, como nossas veterinárias fazem. Pode ser conhecimento sobre finanças (afinal de contas, um grupo com dinheiro desorganizado jamais alcançaria a grandeza da AMPARA). Pode ser doando sua imagem pública, como tantos atores queridos fazem sem titubear, e o que, sem dúvidas nos fez ganhar a visibilidade merecida pela causa. Pode ser organizando um evento. Ou incentivando um amigo a não comprar, mas sim adotar. Pode ser resgatando um, um animal que seja. Ou, por que não?, financeiramente, se esta for a competência e diferencial de alguém bem intencionado?

Todos os movimentos proativos são igualmente nobres porque de fato não são trocados por moeda corrente, mas sim por combustível para a alma.

Eu descobri o que me cabia como voluntária: escrever. É o que amo fazer. É o que me da prazer. E é o que sinto conseguir oferecer para, de alguma forma, contribuir.

Todos têm uma forma a contribuir, seja para a causa que for, da forma que puder.

Não faltam causas e tampouco quem anseie por ajuda.

E você – se o fizer da forma certa, definitivamente não ganhará dinheiro com isso, afinal de contas, quando o assunto é passionalidade e sentimentos muito mais profundos, dinheiro se torna característica secundaria.

Portanto o que sugiro ao longo dessas palavras doadas: se doe. O seu melhor. O excedente de suas mais nobres virtudes. O que não lhe exige aquele esforço sobre-humano para aprender ou se envolver. Se doe à causa que for, como puder.

Acredite: o mundo precisa de pulsos-firmes e também passionais, e você vai descobrir o bem que faz fazer o bem.

 

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