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Abril Laranja: os maus-tratos por trás da criação comercial de animais

Ao olhar para um lindo papagaio em uma loja, um passarinho na gaiola ou, até mesmo, uma cobra nas mãos de alguém nas redes sociais, você já parou para pensar como funciona a produção destes animais? Já tentou se indagar se os animais selvagens dentro deste sistema têm suas necessidades atendidas?

Muitos criadores e donos de animais silvestres trazem o discurso de que “as aves cantam”, ou “meu animal exótico come bem”, ou “ele reproduz”, como se a execução destes comportamentos assegurasse o bem-estar animal. Mas isso é FALSO! A expressão de parte dos comportamentos e extintos dos animais selvagens não assegura a ausência de maus-tratos, tão pouco assegura o bem-estar dos animais.

Quando avaliamos a fauna silvestre em cativeiro, temos que ter em mente a inexistência de domesticação, ou seja, esses animais têm comportamentos totalmente independentes do ser humano, não tendo nenhuma necessidade ou associação ao seu convívio. Com isso, o carinho e cuidado do dono não são suficientes para a manutenção do animal. Soma-se a isso o aspecto mais importante da biologia: a função deste exemplar, o papel que este animal tem no meio ambiente – que se perde por completo quanto o mesmo está preso em gaiolas, por exemplo.

Se engana quem pensa que criação de animais silvestres é muito diferente da criação convencional de animais de produção, salvo suas proporções. Sistemas de criação comercial visam o lucro através da vendo de animais. Eles transformam a vida dos animais em mais um produto, expostos em mercados, gaiolas de petshops e páginas da internet.

É importante trazer para essa discussão elementos científicos que dão um direcionamento para avaliar as necessidades e o bem-estar dos animais. Mas aqui não estamos falando das tradicionais 5 liberdades, mas, sim, sua forma mais atual – os 5 Domínios do Bem-Estar Animal de MELLOR e REID (1994). Este conceito representa quatro domínios físicos (nutrição, ambiente, saúde e comportamento) e um domínio mental (estado mental ou afetivo). Desta forma, os quatro domínios físicos devem ser avaliados com a intersecção do domínio mental – com isso trazemos para as avaliações experiências positivas e negativas, assim as emoções que os animais sentem ou deixam de viver.

Desta forma, será que conseguimos atingir as necessidades das mais de 200 espécies silvestres criadas comercialmente no Brasil? Para nós, da AMPARA Silvestre, esta resposta é muito clara: NÃO. Seria possível um animal selvagem ter suas necessidades respeitadas como espécie? Ou ainda, é possível um cativeiro cumprir com os domínios físicos e mentais de um indivíduo? Ou simplesmente estas questões não são importantes, pois o que vale é a satisfação do ser humano em ter o objeto animal em sua posse?

Para quem nunca visitou ou olhou de perto um sistema de criação ou venda de animais silvestres, faço esse convite. Tenha em mente ao observar as gaiolas, recintos ou simples caixas plásticas, qual o ambiente que essa espécie foi moldada na natureza, ou melhor, quais características e interações que a natureza têm no dia a dia desse animal. Essa simples comparação já seria o suficiente para muitos chegarem a conclusão que estamos limitando, e muito, a vida de centenas de animais para satisfazer mais um desejo ou capricho humano: a possibilidade de ter um animal à sua disposição.

Por mais que muitos produtores falem abertamente que o sistema de criação de silvestres não representa maus-tratos e que o bem-estar dos animais está assegurado, sabemos que a realidade de mais de 400 mil animais presos em criadouros e mais de 3 milhões nos lares brasileiros não é lá esse mar de rosas.

Pegamos o exemplo do famoso sistema de criação de serpentes, os chamados sistemas de prateleiras (rack system, em inglês). São nada mais do que caixas plásticas, ou de madeira, organizadas em prateleiras, de modo a otimizar o espaço e ampliar o número de animais da criação. Não bastasse isso, cada caixa, que é o ambiente de vida desse animal, é resumida com um pote de água, uma toca ou tronco e papel no fundo. Será que o ambiente de uma serpente na natureza é esse? Será que ela consegue se movimentar como na natureza?

Muitos desses terrários (nome dado a gaiolas para animais terrestres) não permitem que o animal se estique por completo, mas quase que a totalidade não permite um deslocamento vertical. Por quantos anos estes animais vão ter seu ambiente resumido a 3 itens: pote de água, uma toca, piso artificial?

Para as aves, talvez a percepção seja mais fácil. Mas, infelizmente, deixamos de nos espantar e naturalizamos a ideia de ver os passarinhos presos em gaiolas. Uma ave na natureza, voa. Simples assim! Não assumir que privar um animal de voar, não representa maus-tratos é negar os fatos e a realidade. Já se perguntou por que compram uma ave com asas cortadas? É muito comum na venda de psitacídeos araras, papagaios e periquitos, e é claramente uma mutilação ao animal. Não seria o mesmo que comprar um gato e cortamos uma pata para ele não pular o muro?

Se precisamos limitar o comportamento de uma animal selvagem para que ele se enquadre nos moldes da nossa vida, isso é claramente uma forma de infringir o bem-estar deste animal.

Essa reflexão não seria necessária se existisse pleno respeito a vida animal, se nossa sociedade realmente dessa importância a nossa biodiversidade animal, uma das maiores do planeta, e procurasse formas mais respeitosas e menos nocivas de contato. Não podemos negar nossa admiração pelos animais, mas podemos, sim, enxergar práticas que não infrinjam a dignidade de milhares de animais para satisfazer a ostentação do mercado.

A AMPARA Silvestre é contra todas as formas de maus-tratos aos animais e não concorda com a comercialização dos animais como produtos. Enxergamos as práticas de criação ex situ como ferramentas de conservação, se executadas dentro de um plano de ação e com propósito, o que não se configura na criação comercial de animais selvagens com finalidade pet.

Se você entende nossa luta, participe ativamente desta mudança e assine nossa petição contra a Lista Pet e ajude a impedir o sofrimento de milhares de animais no Brasil.